Pensando rápido e devagar no dentista

Daniel Kahneman é psicólogo e um dos maiores especialistas da atualidade em economia comportamental. Em seu livro Rápido e Devagar: Duas Formas de Pensar, Kahneman vai explicar como se divide o funcionamento do cérebro humano e de que forma isso pode nos ajudar a entender as decisões que tomamos no dia-a-dia. Mas como esse entendimento pode influenciar a prática odontológica? Vamos conferir.

cadeira dentista

Duas Formas de Pensar.

No livro atribuem-se, para efeitos didáticos, os nomes “Sistema 1” e “Sistema 2” aos conjuntos de mecanismos que fazem uma pessoa tomar decisões rápidas ou lentas, intuitivas ou mais elaboradas, fazer cálculos simples ou complexos e assim por diante. Parar no sinal vermelho: Sistema 1; Fazer uma baliza: Sistema 2; multiplicar 3 x 2: Sistema 1,  347 x 198: Sistema 2 (pelo menos pra maioria das pessoas). E assim por diante. O Sistema 1 torna tarefas habituais automáticas, de forma que não percamos tempos pensando a respeito de cada uma delas.  O Sistema 2 entra em ação quando precisamos lidar com informações mais complexas, utilizando geralmente informações previamente processadas pelo Sistema 1.  

Em certo momento de Rápido e Devagar, Kahneman abordará a forma como tomamos decisões de acordo como as memórias organizadas por esses dois sistemas. Afinal tomamos decisões de acordo com as memórias de experiências passadas. Imagine uma situação desconfortável, com um pico de dor X em certo momento, com duração de 60 minutos. Agora imagine outra situação, também com pico de dor X em um dado momento, com duração de 90 minutos. Se inevitavelmente você tivesse que ser submetido a uma dessas situações, qual escolheria? A de menor duração, certo? Não necessariamente.

Rápido e devagar, o brilho de uma mente com lembranças.

Na obra, Kahneman vai usar o exemplo de um estudo realizado com pacientes de colonoscopia (que infelizmente não dispunham de anestesia na época) onde os pacientes registraram a cada 60 segundos o nível de dor experimentada durante procedimento. Ao término do procedimento, os pacientes eram orientados a classificar a quantidade total de dor sentida. O quão dolorosa ao todo foi a experiência. Os resultados mostraram que a duração do procedimento NÃO exerceu qualquer efeito nas avaliações de dor total, e que a experiência de dor foi melhor prevista pela MÉDIA entre o nível de dor relatado no PIOR MOMENTO da experiência e no seu FIM. O que o autor chama de “regra do pico-fim”.

gráfico pico fim rápido e devagar
Intensidade de dor versus tempo de duração do procedimento

De acordo com o gráfico os dois pacientes tiveram o mesmo pico de dor ( 8 numa escala de 10). O procedimento do paciente A durou menos da metade do paciente B. Mas o do paciente A terminou de forma abrupta, com nível de dor alto e o paciente B terminou com declínio gradual da dor até o último registro de dor, que foi baixo (1 numa escala de 10). Nesse exemplo, a lembrança da experiência do paciente A foi PIOR que a do paciente B. Os pesquisadores descobriram que, inconscientemente, preferimos ficar mais tempo sentindo dor, desde que ela diminua gradualmente. Pelo menos é isso o que fica gravado na memória. Esse fenômeno em que o paciente parece ignorar o tempo de duração do evento é denominado pelo autor como “negligência com a duração”.

A duração do procedimento NÃO exerceu qualquer efeito nas avaliações de dor total (…) a experiência de dor foi melhor prevista pela MÉDIA entre o nível de dor relatado no PIOR MOMENTO da experiência e no seu FIM. O que o autor chama de “regra do pico-fim”

Memórias da cadeira do dentista.

Agora imagine situação semelhante na prática clínica. Por melhores que estejam os anestésicos e por mais que a tecnologia tenha favorecido o dentista, eventualmente podem ocorrer experiências desagradáveis para o paciente. Nesse contexto, seria bastante recomendado que o paciente não experimentasse um pico de dor ou desconforto ao final do procedimento. A saída “o mais rápido possível” da cadeira não seria uma boa opção, pois embora tenhamos uma tendência a achar que a duração é determinante, o nível de dor ao final do procedimento influenciará mais a memória do paciente sobre aquele evento. E, claro, isso pode gerar associação negativa do paciente em relação ao consultório odontológico ou ao dentista.

dentista paciente

Por sorte os momentos finais de procedimentos odontológicos são frequentemente indolores ou muito bem tolerados pelo paciente: polimento de restauração, sutura, profilaxia, obturação endodôntica e etc. Porém uma falha no planejamento da duração anestésica pode botar tudo a perder. Um procedimento cirúrgico demorado, mas sem relato de dor pelo paciente, pode ter sua experiência arruinada no momento da sutura numa eventual redução do efeito anestésico, por exemplo.

 A saída “o mais rápido possível” da cadeira não seria uma boa opção, pois embora tenhamos uma tendência a achar que a duração é determinante, o nível de dor ao final do procedimento influenciará mais a memória do paciente sobre aquele evento

O autor de Rápido e Devagar: Duas Formas de Pensar é psicólogo por formação e foi laureado com o prêmio de Ciências Econômicas em memória a Alfred Nobel, conhecido como “Nobel de Economia”. Sua contribuição no campo da economia comportamental, se propõe a entender melhor os mecanismos que levam as pessoas a tomar as decisões que tomam. Claro que toda a experiência na cadeira do dentista não pode ser resumida à regra do pico-fim ou negligência com a duração. Porém é interessante agregar conhecimento que torne a ida do paciente ao consultório odontológico mais agradável. Ou melhor, que esse paciente guarde memórias mais agradáveis de sua consulta com o dentista. 

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