Ozonioterapia na Odontologia

Ozônio: gás que se tornou famoso nas décadas de 80 e 90 pela “camada” que protege a Terra contra os raios ultravioleta do sol e estava desaparecendo em certas regiões do planeta. Felizmente, esse ano a NASA divulgou dados que mostram que o tal “buraco da camada de ozônio” está em seu menor nível desde que o fenômeno começou a ser monitorado. É por outro motivo, porém, que o ozônio volta a ganhar a atenção de muitas pessoas. Benéfico na estratosfera, atuando como uma espécie de protetor solar do planeta, porém tóxico no nível do solo e da atmosfera, o gás ozônio tem sido usado na Medicina e na Odontologia como potencial tratamento para algumas enfermidades. Na Odontologia, a ozonioterapia é regulamentada através da Resolução Nº 166 DE 24/11/2015 do Conselho Federal de Odontologia. Mas como se dá a ação desse gás e qual sua efetividade? A literatura científica respalda seu uso? Vejamos.

arte água ozonioterapia

História da ozonioterapia

A utilização médica do ozônio não é recente. Já em 1870 cientistas descobriram potenciais efeitos antimicrobianos do gás. O que era algo bastante notável e promissor já que estamos falando de um período em que não havia antibióticos. Uma vez dentro da corrente sanguínea, uma infecção antes superficial poderia reduzir significativamente a expectativa de vida do paciente.

Durante a I Guerra Mundial o ozônio foi testado na Inglaterra como possível desinfetante de feridas (a penincilina só seria descoberta quase 10 anos depois da “grande guerra”). Acontece que a aplicação do gás diretamente nas feridas danificava não só células bacterianas mas também tecidos humanos. Outros antissépticos se provaram mais seguros e o ozônio foi deixado de lado.

Paralelamente, difundiu-se o uso do tratamento da água para consumo humano com ozônio, conhecido como ozonização da água. A ação germicida do ozônio foi evidenciada na França, no final do século XIX, onde começou a ser utilizado como desinfetante em estações de tratamento de água. É bastante comum até hoje a venda de aparelhos domésticos que tratam a água de abastecimento através da ozonização.

A ozonização da água, no entanto, é um procedimento diferente da ozonioterapia, que usa uma mistura específica de oxigênio e ozônio para fins terapêuticos. Essa mistura pode ser administrada via injeção subcutânea, água ou óleo ozonizado, por exemplo. Uma busca pelo termo “ozonioterapia” no Google Trends, site que monitora a quantidade de vezes que um termo é procurado no Google, mostra que no Brasil há uma tendência de aumento no interesse pelo assunto desde meados de 2014.

Órgãos regulatórios

Atualmente, no entanto, o uso terapêutico de ozônio ainda é controverso. No Brasil, o Conselho Federal de Medicina proíbe aos médicos a prescrição desse tipo de tratamento dentro de consultórios e hospitais . A ozonioterapia é permitida em nível experimental, em estudos que sigam os critérios definidos pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa. O órgão alega não haver respaldo científico suficiente que garanta a eficácia e/ou segurança dos procedimentos médicos baseados na técnica. Em dezembro de 2017 um grupo de 55 entidades médicas e científicas divulgou uma nota pública criticando a tramitação no Senado de um projeto de lei que autorizaria a prescrição de ozonioterapia como tratamento médico no país.

Nos Estados Unidos, a agência regulatória FDA (Food and Drug Administration) não aprova o uso terapêutico de ozônio. Segundo a agência, “Ozônio é um gás tóxico, sem útil aplicação médica conhecida em terapia conjunta ou preventiva. De forma a ser efetivo como germicida, o ozônio deve estar presente em uma concentração muito maior do que aquela que pode ser seguramente tolerada por humanos e animais.”

paciente ozonioterapia
Paciente recebendo tratamento com ozonioterapia. Fonte: Wikipedia

Qual é o mecanismo de ação da ozonioterapia?

Segundo Velio Bocci, autor do livro Ozone: A new Medical Drug,

“O ozônio é uma molécula oxidante , uma espécie de oxigênio superativo, que , ao reagir com os componentes do sangue gera uma série de mensageiros químicos responsáveis pela ativação de funções biológicas essenciais, como o fornecimento de oxigênio , ativação imune , liberação de hormônios e indução de enzimas antioxidantes , que é uma propriedade excepcional para corrigir o estresse oxidativo crônico presente na aterosclerose , diabetes e câncer. Além disso , através da indução de óxido nítrico sintase , a terapia de ozônio pode mobilizar células estaminais endógenas , o que irá promover a regeneração de tecidos isquêmicos”

No site do Ozone Dental Group, um grupo que forma profissionais habilitados para utilizar ozonioterapia no Brasil é possível encontrar o seguinte:

“A ozonioterapia é uma terapia natural que utiliza uma mistura gasosa, composta por ozônio e oxigênio como princípio ativo. Tem um caráter bio oxidativo, promovendo uma oxidação transitória do organismo e assim estimulando o sistema imunológico a atuar de maneira mais efetiva. A capacidade oxidante do ozônio é uma das principais características deste gás, proporcionando uma importante e efetiva ação contra vírus, fungos e bactérias (…) A melhora na resposta imunológica acontece graças ao aumento do metabolismo celular, potencializando a reparação e acelerando o processo de cura. Em termos práticos e levando em consideração essas características básicas do ozônio, clinicamente ele pode ser utilizado em praticamente todas as especialidades da Odontologia. Quadros inflamatórios e infecciosos são perfeitamente mediados e conduzidos a um estado de normalidade proporcionado pela estimulação imunológica.”

Ozonioterapia na Odontologia e evidências científicas

Na Odontologia, apesar da regulamentação existente permitindo a prática da ozonioterapia no Brasil, as evidências científicas não parecem ser consistentes. Um estudo de 2004, atualizado em 2019, buscou evidências na literatura para o tratamento de cáries com ozônio. Os autores encontraram alto risco de viés e falta de consistência entre os diferentes resultados encontrados nos trabalhos. Outro estudo de 2019 publicado no Journal of Endodontics, periódico de alto fator de impacto na área odontológica, realizou uma revisão sistemática sobre o efeito da ozonioterapia na desinfecção de canais radiculares (procedimento necessário ao tratamento de canal). Os autores concluíram que “ozônio não é indicado para substituir nem complementar a ação antimicrobiana do NaOCl” (composto mais usado atualmente para desinfecção de canais radiculares).

No site da Associação Brasileira de Ozonioterapia é possível encontrar que “Na área odontológica, a Ozonioterapia reúne uma extensa literatura científica – comprovando sua eficácia.”. Ao clicar no link indicado é possível encontrar 9 artigos relacionados à Odontologia. Curiosamente, apenas 3 artigos concluem haver efeito positivo relativo à ozonioterapia. Os outros 6 artigos não corroboram a prática, havendo um inclusive que mostra resultados melhores com o grupo onde se utilizou placebo.

Infelizmente, não é possível encontrar literatura sólida que dê embasamento ao uso de ozonioterapia para o tratamento de qualquer enfermidade. Também não está claro quais seriam os riscos efetivos de sua utilização em pessoas supostamente eletivas ao tratamento (a ozonioterapia é contraindicada para pessoas com deficiência relacionada à enzima G6PD e para diabéticos não controlados). Nessa zona cinzenta de conhecimento talvez haja um enorme espaço para novas pesquisas e mais estudos.

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