Doença de Alzheimer e periodontite: o que se sabe até agora.

Um estudo de 2017 conduzido na Universidade Médica de Chung Shan, em Taiwan, concluiu que pessoas que tiveram doença periodontal por mais de 10 anos  eram 70% mais propensas a desenvolver doença de Alzheimer do que pessoas sem essa exposição à periodontite. De que forma essas condições se relacionam e o que mais há na literatura sobre o assunto? Vejamos.

Idosos num banco

 

Doença de Alzheimer.

As causas da doença de Alzheimer ainda não foram perfeitamente esclarecidas. Acredita-se que estejam relacionadas a uma soma de fatores como genética e estilo de vida.  A doença é caracterizada por seu aspecto neurodegenerativo que causa declínio cognitivo e perda da memória. É a causa mais comum de demência em idosos. Devido ao aumento da expectativa de vida e mudanças no estilo de vida, projeções recentes têm indicado que 1 a cada 85 indivíduos serão diagnosticados com doença de Alzheimer até 2050.

Um estudo de 2018 mostra que, nos Estados Unidos, a taxa de falha no desenvolvimento de uma droga efetiva contra a doença de Alzheimer até agora foi de 99%. Um indício da falta de domínio da ciência atual sobre as verdadeiras causas da condição.

cérebro alzheimer
A doença de Alzheimer é caracterizada por alterações visíveis no cérebro do portador.

Periodontite crônica.

A periodontite crônica é a inflamação dos tecidos de suporte do dente ocasionada por placa bacteriana. Está inclusa no grupo das doenças periodontais, que podem ou não estar associadas à placa. A deficiência da adequada higiene bucal pode levar ao acúmulo de placa bacteriana patogênica. Um dos primeiros sinais de uma doença periodontal induzida por placa é o sangramento gengival. A gengiva inflama, sangrando até mesmo com estímulos leves como a própria escovação. A periodontite é uma possível evolução da gengivite e geralmente está associada à presença de cálculo dental, conhecido popularmente como tártaro.  O fator causal da periodontite é essencialmente bacteriano, tendo a espécie Porphyromonas gingivalis  um papel importante  no desenvolvimento da doença.

A persistência de placa bacteriana patogênica somada à incapacidade do organismo em controlar a infecção gera inflamação crônica. Estudos já identificaram possíveis relações da periodontite crônica com outras condições sistêmicas como doenças cardiovasculares, diabetes, artrite reumatóide, aterosclerose e até mesmo parto prematuro.

periodonto sadio versus periodonto saudável
Diferenças entre o periodonto saudável e o inflamado.

Como se relacionam.

O caráter crônico da periodontite a torna fonte constante de patógenos ao organismo. Sendo assim, bactérias e seus subprodutos, assim como mediadores da inflamação como citocinas, podem atuar à distância do foco original de infecção, via corrente sanguínea. O intrigante sobre esse assunto é que alguns estudos em cérebros de pessoas que apresentaram a doença de Alzheimer quando vivas têm encontrado a presença de Porphyromonas gingivalis no tecido nervoso.

No entanto, ainda não estava claro se a bactéria causava a doença ou estava simplesmente mais apta a entrar no cérebro afetado pela doença. Até agora equipes de estudo têm encontrado que a P. gingivalis invade e inflama regiões do cérebro afetadas pela doença de Alzheimer; que infecções gengivais podem piorar os sintomas da doença de Alzheimer em ratos geneticamente modificados; e que essa bactéria pode causar inflamação cerebral semelhante a da doença de Alzheimer, assim como dano cerebral e placas de amilóide em ratos sadios. 

Tem mais. Pesquisadores da Cortexyme, empresa farmacêutica com foco em doenças neurodegenerativas, têm encontrado enzimas tóxicas usadas por P. gingivalis para decompor tecidos humanos em amostras de cérebros de portadores da doença de Alzheimer. Mais especificamente em amostras do hipocampo, uma área do cérebro importante para memória. Os pesquisadores também encontraram material genético de P. gingivalis no córtex cerebral, região envolvida no pensamento conceitual. Quando a equipe de pesquisadores induziu doença periodontal provocada por P. gingivalis em ratos, resultou em infecção cerebral com dano neuronal nas regiões e nervos normalmente afetadas pela doença de Alzheimer. “Isso sugere relação de causa” diz  Casey Lynch, pesquisadora da Cortexyme.

colônia de porphyromonas gingivalis
Colônias de P. gingivalis. Após 7 dias de incubação sem oxigênio acumulam pigmento negro na superfície celular.

É importante salientar que trata-se apenas de uma hipótese por enquanto. A relação causal direta ainda não foi comprovada. Mais estudos precisam ser conduzidos para que se chegue a um veredito sobre o tema. Também não é a primeira vez que uma hipótese alternativa de causa da doença de Alzheimer é proposta. A linha de pesquisa da professora Ruth Frances Itzhaki, da Universidade de Manchester no Reino Unido, investiga possíveis relações do vírus HSV-1 (vírus causador da herpes simples) no desenvolvimento da doença. A pesquisadora sugere inclusive o uso de medicações antivirais no tratamento da doença de Alzheimer. No entanto, a professora lembra que os estudos mostram uma associação entre o vírus e a condição neurodegenerativa, mas não mostram que o vírus é a causa real da doença.

Como prevenir?

Da mesma forma que as causas da doença de Alzheimer não estão perfeitamente esclarecidas, também não é possível afirmar com exatidão quais as formas de prevenção realmente eficazes. Sabe-se, por exemplo, que o fator genético é importante no desenvolvimento da doença e que influências ambientais devem atuar como potencializadores da condição. Segundo o site do Ministério da Saúde “médicos acreditam que manter a cabeça ativa e uma boa vida social, regada a bons hábitos e estilos, pode retardar ou até mesmo inibir a manifestação da doença”.

A doença periodontal, no entanto, tem causas muito bem identificadas. Por mais que não se venha a comprovar futuramente a relação causal com a doença de Alzheimer, a periodontite é sabidamente um fator debilitante da saúde geral do indivíduo. A prevenção nesse caso é possível e acessível. Escovação regular, uso do fio dental e visita frequente ao dentista são hábitos simples que poderão prevenir não só doenças da cavidade oral como de todo o organismo.

 

 

 

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